Raio de Sol

Era madrugada e toda a aldeia estava reunida em volta da fogueira na pequena tribo Tapajós localizada em algum lugar na reserva florestal de Curitiba. O pajé contava histórias de uma antiga guerreira que de acordo com os ensinamentos de seus ancestrais estava para nascer, essa guerreira seria dotada de extrema sabedoria, compaixão e beleza, ele dizia que seu canto era capaz de acalmar até a mais terrível das feras e que ao olhar para sua face todos os guerreiros caiam ao chão, seus cabelos seriam de um loiro tão puro que até mesmo o sol seria ofuscado pelo seu brilho e resplendor e que ela tomara emprestado a beleza das flores, dos rios e da lua em seu próprio corpo.

Essa seria a guerreira que guiaria a pequena tribo dos tapajós rumo ao conhecimento pleno e profundo do Grande Espírito, porque muito se ouvia falar desse ser, mas muitas também eram as mentiras ao seu respeito, cada um inventava e contava suas próprias histórias do Grande Espírito, mas essa guerreira não, as lendas diziam que ela ouviria a voz do Grande Espírito e seria os seus lábios e sua boca e que guiaria não somente aquela pequena tribo, mas o homem branco também.

A tribo estava ainda mais aflita e concentrada nas histórias do pajé porque mais precisamente naquela data haveria de nascer a “Kinukatipoá” ou Raio de Sol na nossa tradução, a guerreira que era prometida desde que homem branco pisou na terra corrompendo a todos com seus costumes imundos e profanando o lar do Grande Espírito. Acontece que a suposta mãe de Raio de Sol já entrara em trabalho de parto há pelo menos quatro horas e mesmo com a ajuda do curandeiro e das anciãs da tribo, ainda não conseguira trazer ao mundo aquela que seria a esperança de todos.

Conforme o tempo ia passando a aflição dos presentes ia aumentando, o pajé já mostrava em seu semblante os primeiros sinais de preocupação e as histórias já começavam a se repetir, as danças em volta da fogueira para comemorar a chegada de Raio de Sol já vinham diminuindo de ritmo, havia mulheres segurando nas mãos umas das outras e fazendo preces ao Grande Espírito, o clima de festividade aos poucos se convertia em pavor e terror, todos temiam pela saúde do bebê e sua mãe e mais do que isso, temiam por suas próprias vidas pois acreditavam que se Raio de Sol não viesse a nascer, isso iria significar de que o Grande Espírito não amava mais aquele povo.

Na pequena tapera onde Raio de Sol estava para nascer, via-se o mesmo pavor nos rostos das anciãs do que de todo o povo do lado de fora, elas abraçavam umas as outras e faziam preces ao Grande Espírito, a mãe de “Kinukatipoá” segurava em uma de suas mãos enquanto ela forçava inutilmente para que o bebê pudesse sair. O Curandeiro fizera um sinal para as anciãs que estavam lhe auxiliando como se dissesse que não havia mais nada a ser feito, a mãe de Raio de Sol entendera aquele sinal, ja estivera envolvida num parto onde o bebê nascera natimorto, ela entendia o que o curandeiro estava para fazer… Ela reuniu suas últimas forças e tentou mais uma vez empurrar Raio de Sol, tentou… Não conseguiu.

O curandeiro deu a ela uma mistura de ervas para que ela pudesse dormir, ela tomou na intenção de aliviar a dor, mal sabia que aquele chá fora feito principalmente para matar a criança em seu ventre e impedir que a mesma se mexesse enquanto eles a removiam de se ventre. Após ela adormecer começaram os preparativos, mas antes de executarem o tal plano o pajé foi chamado até a pequena oca para ser informado do que estava prestes a acontecer. O pajé muito pranteou naquele instante, primeiro pela promessa feita pelo próprio Grande Espírito aos seus ancestrais, segundo porque a pequena “Kinukatipoá” seria sua bisneta e terceiro por saber que sua querida neta que estava ali deitada naquela cama nunca mais conseguiria segurar uma criança em seu ventre após tomar aquele chá.

O pajé consentiu de que se retirasse a criança do ventre da mãe, a aquela altura o chá já fizera efeito e a criança já não se mexia mais dentro da barriga da mãe. Ao sair da tapera o pajé viu a desilusão no rosto do seu povo e temeu pelo pior. Muitos dos que ali estavam já eram velhos e viveram até então na esperança de poder segurar a pequena Raio de Sol em seus braços, mas agora… Agora tudo estava perdido. Aproximava-se das seis horas da manhã quando o curandeiro e as anciãs saíram da tapera, o povo chorou, choraram pela pequena “Kinukatipoá“, choraram por ver sangue nas mãos do curandeiro, choraram por suas esperanças haverem chegado ao fim.

Às 06:22 da manhã no horário de homem branco ouviu-se um som saindo da tapera que logo tornou-se um grande choro, maior do que todos os outros que choravam do lado de fora, e um feixe de luz foi projetado em direção a pequena Raio de Sol que berrava na cama ao lado da sua mãe, o pajé correu ao encontro da bisneta e a encontrou recostada no seio materno, ela tinha sangue por todo o corpo mas mesmo assim conseguia ser a imagem mais linda daquele ambiente, com cabelos tão loiros e lisos, sua pele branca como a neve e sua face corada, ela tinha lábios grossos para um bebê e olhava fixamente para o pajé como se soubesse que era a esperança não somente de seu bisavô, mas também de toda aquela tribo e talvez de toda a humanidade.

Por ironia do destino ou não, Raio de Sol nasceu junto com o sol naquela manhã e mesmo que muitos tenham dito que ela nascera natimorta a verdade é que o Grande Espírito a ressuscitará porque daquele dia em diante ela seria seus lábios e sua boca para falar diretamente com o povo. A pequena “Kinukatipoá” já nascera sabendo de sua missão e para a alegria de todos daquela tribo, ela já nascera vencendo a morte e tornando-se o Raio de Sol de esperança para todos.

Música para esse conto:

 

 

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