A Morte do Presidente

 

– Precisamos sair, o local todo vai explodir!

– É tarde para mim, salve sua vida!

– Não vou a nenhum lugar sem você…

Pip…pip…pip…

 

Brasília – DF 48 Horas antes…

 

– Você não deveria estar pronto, é seu grande dia.

– Mas eu estou pronto!

– Nem pensar, você não vai me acompanhar vestidos nesses trapos.

– Nós estamos indo para a morte do presidente e não numa festa de gala Beatriz.

– Sim, e por isso mesmo não pode ir vestido que nem um mendigo. E a propósito, é uma festa de gala.

– Mas respeito, isso é um Armani.

– Isso foi um Armani Otávio, quando você comprou em 2003, hoje não passa de trapos. Venha, eu te ajudo a escolher algo mais adequado.

Você deve estar pensando quanta frieza na vida dessas duas pessoas, elas estão prestes a assassinar o presidente da república e agem como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Também pudera, esse não era o primeiro assassinato da dupla, pelo contrário, na deep web eles eram descritos como os melhores, pelo menos os melhores Brasileiros.

Quem via Beatriz (Codinome utilizado, eu nunca soube de fato seu nome) tão doce e meiga, jamais poderia imaginar que ela era uma assassina sádica e fria. Contam por aí que muitos preferiam ser torturados pelo diabo em pessoa do que cair nas mãos de Beatriz. Ela seduzia suas vítimas com seu charme e depois os mutilava enquanto ainda estavam vivos, me lembro de um relato de que certa vez ela obrigou uma de suas vítimas a comer cada um dos seus dedos e no final ainda pedir bis. Beatriz era conhecida como “Demônia Encarnada“, título que a fazia sorrir quando pronunciado por um de seus amigos, pois ela mesma sabia que nem o demônio gostaria de cruzar o caminho dela.

Otávio não era muito diferente, embora tenha sido o mestre de Beatriz assim que ela entrou para o Experimento 619, ele também tinha medo dela e de seus métodos de tortura e assassinato. Mas não se engane em pensar que ele era o policial bonzinho, longe disso. Otávio também tinha um apelido muito temido por seus inimigos, o chamavam de “Vampiro Negro” em referência a cor de sua pele, mas principalmente ao fato dele sempre beber o sangue de suas vítimas enquanto as assiste agonizar e morrer.

Os dois formavam uma dupla perfeita, um time implacável e ambos sabiam que chegaria o dia em que receberiam ordens para matar um ao outro. Mas enquanto esse dia não chegava os dois trabalhavam juntos, quem os via de longe até poderia pensar que eram um casal normal e pais de duas lindas garotinhas. Embora vez ou outra eles flertassem e já tivessem ido para cama algumas vezes, ambos sabiam que esse sonho de vida e família feliz não pertencia a eles, eles não mereciam essa dádiva e com certeza não seriam agraciados por ela.

– Me sinto um garçom, quem usa gravata borboleta hoje em dia?

– Você está lindo, além disso, agora está parecendo gente!

– E o que eu parecia antes?

– É melhor não comentar. Você carregou os rifles?

– Carreguei, mesmo sem saber o porquê. Nós nunca utilizamos.

– Nunca se sabe quando irá precisar querido, hoje parece ser um bom dia para usá-los. A agência já enviou os dados da segurança particular do presidente?

– Já sim! Ele conta com pelo menos vinte seguranças fortemente armados, e pelo menos mais trinta fazendo a segurança do prédio. Mas como hoje é uma noite de gala, a segurança deve ser reforçada pela polícia civil e militar e ouvi rumores de que as forças armadas estarão presentes também só por precaução.

– E nossa distração? Está tudo certo?

– Ah minha Demônia, pensei que não fosse perguntar. O estádio está totalmente carregado de C4 será realmente uma noite de gala para o presidente.

– Eu diria que para os seus convidados, o presidente não estará vivo para ver a queima de fogos.

Antes de contratarem Vampiro Negro e Demônia Encarnada a facção criminosa conhecida apenas como “As Sombras da Coroa” vasculharam a deep web atrás de assassinos de aluguel que topassem fazer o serviço. E embora tenham recebidos várias propostas, algumas bem caras por sinal, na hora de realmente combinarem de se encontrarem para a contratação do serviço, a maioria dos assassinos fugiam, apagavam seus nick’s e nunca mais eram vistos nesses fóruns. A organização já estava perdendo as esperanças quando por uma indicação anônima a dupla foi citada, já sem nenhuma expectativa a organização entrou em contato e combinou a quantia de R$ 500.000,00 adiantados e mais R$ 500.000,00 após o serviço finalizado. O e-mail foi respondido por Demônia com um rostinho sorrindo e os dizeres: “Com esse valor o máximo que podemos fazer é matar o cachorro de estimação do presidente.” Nesse momento a organização entendeu que haviam encontrado as pessoas certas para a tarefa.

Os valores da negociação nunca foram de fato divulgadas, mas há quem diga que com esse dinheiro Vampiro Negro poderiam comprar todas as pessoas do continente Africano apenas para banhar-se do sangue deles. Após o acerto do valor inicial a dupla pegou o primeiro vôo para Brasília hospedando-se na suíte presidencial do Plaza Hotel localizado no centro da Capital Federal. Claro que eles transaram na primeira noite que chegaram, o ambiente estava propício a isso. A suíte era equipada com uma cama de madeira pura totalmente trabalhada a mão, seu colchão de tão macio dava a impressão de estar deitando em algodão, seus lençóis faziam com que o ambiente todo ficasse com um doce aroma de lavanda, em cima da mesa de jantar um enorme lustre de cristal projetava seus feixes de luz por todo o espaço, os talheres postos sob a mesa era da mais pura prata e suas taças de um cristal tão nítido que quase chegava a ser transparente, ao lado da cama ficavam dois criados mudos com castiçais e velas aromáticas, o toilet continha uma banheira tão grande que muito se assemelhava a uma piscina, espelhos rodeavam todo o ambiente e uma luz branca viva transmitia uma sensação de paz, até para aquelas duas almas.

Os dois aproveitaram bem o primeiro dia de estadia. Rolaram no tapete de entrada, depois rolaram no sofá, na cama e até em cima da mesa de jantar. Nessa hora Otávio disse a Beatriz que ela seria o seu jantar e que ele estava com uma fome insaciável. Beatriz sentia tanto prazer que suas unhas penetravam a pele das costas de Otávio a deixando com uma marca vermelha e arrancando sangue nas pontas. Ela gemia tão alto que por duas vezes a portaria interfonara para perguntar se estava tudo bem. Otávio por sua vez batia na cara de Beatriz e a xingava de nomes como safada ou vadia, ela ia ao delírio em cada tapa. Antes de tomarem um relaxante banho e curtirem a hidromassagem, ele ainda puxou seus cabelos e a empurrou sobre a mesa falando algumas coisas em seu ouvido e em seguida como se fosse um lobo feroz sentindo o cheiro do cio de sua fêmea ele a penetrou com ainda mais força, de maneira que agora ouvia-se em seus gemidos um misto de prazer e dor, ela tentando encontrar alívio mordia os dedos de uma das mãos de Otávio a ponto de arrancar sangue de um deles, ele puxava seus cabelos com ainda mais força e a xingava com mais sagacidade, os dois ficaram nesse êxtase até que ambos se saciassem em seus delírios pervertidos.

– O Uber chegou.

– É sério que você pediu um Uber?

– Você preferia ir de taxi?

– Não, mas poderíamos alugar um carro.

– Otávio, as vezes você não parece aquele cara que me treinou. Quer deixar registros de que estivemos aqui? Temos que ser como sombras.

– Sombras não gemem daquele jeito.

– Cala a boca seu idiota, ou meto um tiro na sua cara aqui mesmo.

– Essa é a minha Demônia.

Os dois entraram no Prisma preto indo em direção ao Palácio do Planalto, residência oficial do Presidente da República, mas não sem antes guardarem no porta malas do carro uma bolsa com o material que usariam para seu ato cruel.

– Noite agradável, não acham? – Perguntou o motorista do Uber tentando ser gentil.

– Sim, muito agradável. – Respondeu Beatriz.

– Aceitam uma água ou uma balinha?

– Não obrigado! – Respondeu Otávio.

– Eu aceito uma água, preciso repor o líquido que perdi. – Disse Beatriz dando uma piscadinha para Otávio.

A viagem foi tranquila e não demorou mais do que cinco minutos. Ao chegarem no local os dois ofereceram uma boa quantia ao motorista do Uber para que esperasse ambos até o fim da festa. Ele sem reclamar topou. Ao chegarem na festa eles foram recepcionados e logo convidados a tomar assento junto com o Ministro da Fazenda e de Minas e Energia que lá estavam. Para os demais convidados, Beatriz e Otávio eram donos de uma petrolífera interessada em comprar grande partes das ações da Petrobrás saudando uma dívida bilionária que a mesma tem com seus credores.

Os dois aceitaram o convite para não parecerem mal educados e por um instante se distraíram no meio de tantos políticos, alguns deles já até tinham visto escândalos na televisão como o que desviava remédios de hospitais e outro que roubava a verba destinada a merenda das crianças. “Eles não são melhores do que nós” Pensou Beatriz lançando um olhar para Otávio, que como se entendesse assentiu com a cabeça.

– Cavalheiros, nossa conversa está muito interessante para nós e para nossa empresa, mas precisamos nos ausentar, além disso, minha esposa e eu temos muita vontade de conhecer o presidente pessoalmente.

– Claro, tenho certeza que o presidente irá se sentir honrado em conhecê-los. Eu mesmo irei apresentá-los quando ele se chegar.

– Seria um prazer e muito obrigada por sua gentileza ministro.

– O prazer é todo meu senhora, desculpe não consigo pronunciar seus sobrenome, senhora…

– Rockfeller, é senhora Rockfeller.

– Isso mesmo, senhora Rockfeller… Senhor e senhora Rockfeller.

– Se nos dão licença, precisamos ir. – Otávio estendeu a mão em cumprimento aos ministros e em seguida Beatriz fez o mesmo e ambos saíram.

Um pouco antes da apresentação do presidente ouviu-se um enorme estrondo, tão alto e forte que tremeu a terra. Imediatamente a multidão que estava dentro do Palácio da Alvorada começou a correr desesperada, ouvia-se gritos, choros, sirenes da polícia e dos bombeiros, soldados correndo por todos os lados, freadas bruscas de carros, e quando saíram para fora foi possível notar o céu de Brasília mais negro do que o de costume, uma imensa nuvem de fumaça cobria o céu e era possível avistar uma grande fogueira a céu aberto no lugar onde antes era um dos maiores monumentos de Brasília, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, inaugurado em 10 de Março de 1974 em homenagem ao antigo ídolo do Botafogo; Manuel Francisco dos Santos o Mané Garrincha. Anos de história e arquitetura literalmente pelos ares, ninguém sabia como, mas ele estava em chamas e escombros, findava-se a história do estádio na Capital Federal.

Como era de se esperar a multidão que ali estava após o choque do acontecimento seguiu em procissão rumo ao estádio, não somente civis, mas militares e as forças armadas também. Nada poderia estar mais perfeito. Com toda atenção voltada para o estádio, o presidente era um alvo fácil para a dupla de assassinos. O difícil seria apenas encontrá-lo dentro daquele gigantesco palácio e é claro, passar pelos guardas que ainda restavam para fazer a segurança presidencial.

– Está na hora!

– Eu distraio os guardas e você pega a encomenda.

– Certo, mas não vá me trair minha Demônia, estou de olho em você.

– Se você não fizer nenhuma besteira, posso te dar uma recompensa mais tarde.

Beatriz não falava isso a toa, pois era Otávio quem geralmente ferrava com alguma missão. Na última em que trabalharam juntos eles tinham que matar o líder religioso de uma seita no interior do Amazonas, mas ao chegar lá descobriram que não se tratava do líder e sim da líder, Otávio se apaixonou instantaneamente pela líder daquela seita e só topou assassiná-la quando descobriu que as mulheres daquela seita arrancavam os órgãos sexuais de seus parceiros e ofereciam ao seu deus. E ele só concordou depois de ter uma bela cicatriz lá embaixo para contar a história. O medo que Otávio fizesse alguma besteira quando estivesse cara a cara com o presidente era muito grande, mas Otávio também não conseguiria seduzir os guardas, então ela tinha que confiar nele e acreditar que em algum lugar existia aquele cara que um dia a treinou.

– Eu sou louca por homens de farda.

– Senhora, não deveria estar aqui. Onde está seu esposo?

– Deve estar se divertindo por aí com alguma puta. Que sorte a minha ter você.

– Senhora, eu estou em serviço.

– Me chame de Bia, só Bia…

– Bia, eu estou em serviço. Além disso eu não posso permitir que passe desse corredor.

– Mas eu não quero passar, só quero me divertir um pouco. E além disso, ninguém vai reparar que você saiu do seu posto. Estão todos lá fora indo em direção ao estádio, vamos nos divertir só um pouquinho?

– Senhora… Quer dizer, Bia…. Meus superiores estão aqui, além disso meus colegas também e eu não sou muito comportado no quartel. Se for pego abandonando o posto posso pegar detenção de até um mês.

– Nossa, agora você me deixou ainda mais louca. Um soldado malvado?! Você me enche de tesão falando assim, vocês são quantos aqui?

– Agora estamos em dez.

– E se você chamasse os outros nove para se divertirem comigo também? Assim não teria ninguém para contar.

– A senhora é mesmo uma safada, deixa eu mudar a linha do meu comunicador para uma frequência privada. – Código 619, repito código 619. Todos comparecerem à sala dois da ala norte setor Q5. Temos uma donzela que precisa ser salva.

– É assim que eu gosto.

Otávio ouviu cada palavra que Beatriz disse e embora soubesse que parte do que fazia era para provocá-lo, ele não se permitiu sentir ciúmes. Dessa vez ele realmente focou na missão e caminhou em direção ao gabinete do presidente.

– Quem é você? O que está fazendo aqui?

– Fique calmo senhor presidente, o senhor corre perigo. Eu vim aqui para tirá-lo daqui em segurança. Estamos sob ataque dos Estados Unidos.

– Estados Unidos? Que loucura é essa? Temos acordos diplomáticos com os Estados Unidos!

– Onde o senhor esteve nas últimas duas horas senhor presidente?

– Eu estava aqui me arrumando para o baile de hoje a noite, por que?

– Um de nossos soldados foi capturado nos Estados Unidos tentando explodir o pentágono.

– Eu preciso ligar para o Ob…

– Não há tempo senhor presidente, sua vida corre risco. Não podemos confiar em ninguém, eu estou aqui para tirá-lo em segurança.

– Se não podemos confiar em ninguém, quem me garante que posso confiar em você?

– Isso garante! – Otávio mostrou uma credencial para o presidente que imediatamente o seguiu.

—//—

– Nossa, que arma bonita. Qual é o calibre dela? Está carregada?

– Essa arma é uma ponto quarenta. Está carregada sim, por que? Quer que eu a coloque em algum lugar dentro de você?

– Eu tenho uma ideia melhor.

Alguns tiros depois e muito sangue no chão lá estava ela vestindo-se para terminar o serviço que havia começado. Enquanto ela cuidara de dez homens sozinha (Nos dois sentidos), Otávio conduzia o presidente até o Uber que haviam contratado. Devido ao alvoroço que permanecia lá fora por conta do estádio símbolo da cidade que ardia em chamas, ninguém percebeu quando a linda mulher saiu desfilando pela porta central do Palácio da Alvorada e entrou no Prisma preto juntando-se a Otávio e ao presidente.

– Esse homem…. Esse é… É o presidente da república? No meu Uber? Ou é um sósia?

– Sim, sou eu mesmo.

– Senhor presidente só queria falar que é uma honra conhecê-lo e que eu votei no senhor nas duas últimas eleições.

– Obrigado pelo voto, mas porque estamos num Uber?

– É melhor que o senhor não saiba senhor presidente. Agora dirija o carro.

– Claro, para onde iremos?

– Você saberá, agora apenas dirija. O presidente corre risco de vida.

O carro arrancou cantando pneus seguindo pelo eixo monumental, em frente ao estádio nacional era possível ver vários caminhões do bombeiro tentando controlar o fogo e também voluntários ajudando como podiam. Ao se afastarem bastante daquele lugar o motorista ligou o rádio do Uber, ao passo que nenhuma notícia foi tocada, mas todas as rádios repetiam a mesma notícia de que o estádio nacional havia sofrido um atentado terrorista e de que ninguém tinha notícias do presidente da república. Nessa hora o presidente olhou com um olhar desconfiado para o casal que estava com ele no carro e perguntou:

– Se você é mesmo um “Agulha Negra” porque não reporta ao seu superior que eu estou contigo?

– Ah senhor presidente, como eu disse, nós não podemos confiar em ninguém. Temo que meus superiores estejam de complô com os Estados Unidos nesse ataque.

– Eu preciso ligar para minha esposa e filha, preciso alertá-las de que estou bem.

– Por enquanto não posso permitir que faça ligações senhor presidente.

– Que lugar é esse? Não estou reconhecendo, estamos indo para alguma fazenda?

– Na verdade senhor presidente, você logo saberá!

O carro seguiu por mais alguns quilômetros numa estrada de terra cercado por árvores em todos os lugares, o lugar era tão deserto e escuro que não era possível enxergar nada além do alcance dos faróis e nada atrás do carro, Otávio pediu para que o motorista fosse reduzindo a velocidade do carro lentamente pois precisava encontrar uma entrada que ficava escondida na mata. Nessa hora o presidente que até então estava aflito suspirou de alívio, pensando ele de que estava sendo conduzido para alguma base secreta onde estaria a salvo, ele não estava de tudo errado.

– Aqui! Pare o carro aqui! Obrigado por seus serviços! – Otávio sacou uma arma e antes que o motorista do Uber pudesse reagir, atirou contra a cabeça do mesmo matando-o instantaneamente.

– O que foi isso? O que você fez? Por que o matou?

– Eu já disse senhor presidente, não podemos confiar em ninguém. Não podemos deixar provas.

– Provas? Provas de que? Vocês não são “Agulhas Negras”?

– Negro eu sei que sou senhor presidente, agora a agulha é uma ótima sugestão para o momento final.

– Momento final? Do que está falando? Onde eu estou? O que vão fazer comigo?

– O senhor já saberá!

Beatriz abriu o porta malas e envolveu o presidente com explosivos em todo o tórax, após isso o amordaçou e colocou um capuz em sua cabeça. Ela virou quase que suplicando para Otávio e perguntou:

– Posso me divertir com ele um pouquinho?

– Claro que não Beatriz, não estamos aqui para isso.

– Mas só um pouquinho, só uma maldadezinha. Por favor!

– O que você não pede com essa carinha de Demônia que eu não faça. Ok, só um pouquinho, o que pretende fazer?

– Não sei, será que o sangue de um presidente tem o gosto bom?

– Agora você falou minha língua, podemos provar.

O presidente tentou falar alguma coisa, mas devido a mordaça não era possível compreender nada. Beatriz puxou uma faca da sua cintura e cortou uma pequena tira da pele do braço do presidente, bem pequena mesmo, mas o bastante para fazê-lo urrar de dor e para que ambos pudesse chupar o sangue que escorria da ferida. Eles repetiram isso mais umas duas ou três vezes até que ouviram um barulho.

– Ouviu isso?

– Não deve ser nada, estamos na mata. Provavelmente algum bicho.

– Não, não é barulho de bicho.

– Não seja medrosa Beatriz.

Beatriz tinha um sexto sentido aguçado desde criança, e sempre que pressentia algo poderia esperar pelo pior. Dessa vez não seria diferente, enquanto tentava se concentrar para escutar de onde estavam vindo aqueles barulhos ela quase que viu em câmera lenta quando um tiro certeiro acertou o meio da testa do presidente fazendo com que este caísse no chão já totalmente sem vida.

– Abaixe-se! O presidente está morto!

 

Águas Lindas – GO Agora…

 

– Precisamos sair, o local todo vai explodir!

– É tarde para mim, salve sua vida!

– Não vou a nenhum lugar sem você…

Pip…pip…pip…

– Eu não acredito que morreremos assim!

– Não morreremos hoje Beatriz.

– Morreremos sim Otávio, falta menos de cinco minutos até todo esse C4 explodir nos mandando pelos ares.

– Não se pudermos desarmar.

– Nós não sabemos desarmar bombas Otávio. E mesmo se soubéssemos o que adiantaria, eu já estou morta. Eu levei um tiro no peito, eu não vou resistir.

– Não diga isso, nós vamos desarmar essa bomba e sairemos daqui. Eu só preciso cortar o fio vermelho.

– Isso não é um filme Otávio!

– Nossa vida é quase um filme, com uma exceção.

– E qual é?

– Só existem fios vermelhos, eles pensaram em tudo.

– Otávio, posso te pedir uma última coisa?

– Você pode pedir quantas coisas quiser e essa não será a última.

– Será sim… Otávio, eu preciso que você tire a minha vida e depois corra o mais rápido que puder. Eu não quero explodir com esse lugar, pelo menos não viva.

– Sabe que não posso fazer isso.

– Vai ter que fazer. Lembra quando eu sumi por um ano e você não soube notícias minhas?

– Claro que lembro, você fez muita falta.

– Eu sumi porque estava grávida Otávio, mas eu sabia que se te contasse você iria querer largar a organização e ia querer que eu largasse também. Mas eu tive esse filho Otávio e ele é tão lindo como o Pai.

– Você…. Você está…. Está me dizendo que eu sou Pai? Eu sou Pai?

– Sim Otávio, você é e é por isso que precisa voltar para casa. Encontre minha mãe, eu disse a ela que se um dia você fosse procurá-la é porque eu havia morrido em serviço e que era para ela entregar o Júnior para você.

– Você deu meu nome para o nosso filho?

– Sim Otávio, agora faça…

Otávio pegou a arma, mas não conseguia atirar, ele ficou tremendo com a arma apontada para a cabeça de Beatriz. E quando o cronômetro da bomba marcava dois minutos ele puxou o gatilho. Antes de deixar o local ele a beijou e saiu correndo, ele correu sem olhar para trás, e quando conseguiu por fim sair daquele local, foi arremessado fortemente contra um campo que estava a sua frente. Quando viu o lugar onde jazia sua amada pelos ares ele se lembrou do que tinha acontecido há apenas dois dias quando os dois juntos plantaram explosivos em no estádio nacional e logo a noite o explodiram, ele lembrou de tudo que viveu com ela, lembrou das brigas, das ameaças, do tanto que eram felizes juntos, mesmo nunca tendo se permitido sentir verdadeiramente aquela felicidade, ele se lembrou que não eram merecedores de ser felizes, mas ele estava errado.

Ao pegar seu pequeno filho de seis anos nos braços pela primeira vez, Otávio soube o que era de fato felicidade!

Fim

 

Frank S. C. Writer

 

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