Leia meu coração…

Hoje acordei diferente, completamente diferente. Eu acordei com um largo sorriso no rosto, como se estivesse tendo o mais puro e sublime sonho, eu abri os olhos e fiquei deitado na cama tentando me lembrar do sonho, dos acontecimentos imaginários que me levaram a expressar aquele sorriso logo pela manhã e… Por mais que eu tentasse me lembrar eu não consegui.

Mas isso não foi de tudo ruim, o meu subconsciente estava completamente em paz. Como se aquilo que aconteceu no meu imaginário de alguma forma me trouxesse a mais tenra paz. Mas porque? Por que eu estava tão sereno por um sonho que se quer me lembrava, aliás… Me lembrava de uma única coisa, uma frase que ficava martelando na minha cabeça: “Leia meu coração…”

Comecei a pensar em todos os sentidos que essa frase poderia ser aplicada e em todas as pessoas que poderiam me dizer essas palavras e em quais contextos elas poderiam ser aplicadas. Leia meu coração… Se eu pelo menos soubesse quem ou porque alguém me disse essa frase nesse sonho eu poderia ler ou interpretar as palavras desse coração.

Após um longo período de pensamentos e reflexões fui interrompido pelo meu cachorro Teddy, ele queria brincar. Me deu algumas lambidas e em seguida mordeu a barra da calça do meu pijama e começou a querer me arrastar para fora. Eu achei aquilo incrível, como esse cachorro é inteligente. Me lembro de pensar que hoje é sábado e que Teddy merecia realmente dar uma volta, seria legal um programa assim, só nós dois.

Eu o abracei bem forte como fazia todas as manhãs, mas senti algo diferente naquele abraço, meu pequeno Ted parecia saber o que se passava dentro de mim e ele me apertou forte, talvez com todas as forças de suas patas e olhe que ele é bem forte. Teddy é um labrador de cor caramelo de dois anos e quatro meses que pesa aproximadamente trinta quilos. Ele é bem carinhoso e eu posso jurar que as vezes ele sorri pra mim, não sei o que seria da minha vida sem ele.

Vestimos nossas roupas e saímos para passeada. Ted estava elegante vestindo botinhas nas quatro patas e uma gravata borboleta. Sei que as botinhas podem ser exagero para alguns, mas você já experimentou andar descalço no asfalto? Até mesmo às 10:00 da manhã é bem quente e honestamente eu não quero que as patinhas dele fiquem feridas. Além disso, vocês precisam ver o quanto ele fica elegante e charmoso nessa roupinha, chama atenção pode onde passa. E ele se sente o tal, sabe que é cobiçado pelas cadelinhas e que também chama a atenção das mulheres que o acham uma gracinha, mas o que ele mais gosta mesmo é quando alguma criança se aproxima pra passar a mão nele, nessas horas ele simplesmente se derrete, ele é um bom garoto.

Nós caminhamos por aproximadamente uma hora até que eu me sentei para tomar uma água de coco. Ted sentou-se ao meu lado e ficou olhando as pessoas correndo, logo em seguida vencido pelo cansaço acabou se deitando sob suas patas. Tudo estava na mais tranquila paz até que ele levantou as orelhas primeiramente e em seguida começou a latir, mas era um latido diferente do que eu estava habituado a ouvir, era um latido de desespero, eu apertei os olhos para conseguir enxergar o que estava o atormentando e em seguida saímos os dois correndo.

Teddy foi o único que avistou uma jovem se afogando no lago do parque. Por ser sábado pela manhã eu presumi que tinham aproximadamente 400 pessoas naquele parque mas nenhuma delas viu aquela cena, somente ele o meu bom garoto. Quando cheguei ao lago ela já tinha afundado, Ted e eu pulamos na água e eu mergulhei até puxá-la para cima. Ele mordeu uma das mangas da blusa que ela estava vestida e em seguida começamos a nadar até a margem.

Chegando lá uma multidão começou a se aglomerar em torno e Ted começou a latir para que dessem espaço. Eu tentei acordar a moça mas ela não respondia, foi nessa hora que Teddy me lançou um olhar e eu entendi que deveria fazer respiração boca a boca para que ela pudesse expelir a água que estava em seus pulmões. Na terceira vez que soprei em sua boca ela tossiu e cuspiu cerca de 300 ml de água, em seguida ficou praticamente sem ar.

Teddy chegou do lado dela e começou a lamber seu rosto, ela meio que atordoada ainda lançou um olhar para Teddy de aprovação e ternura, ele respondeu com o mesmo amor. Ambos ficaram se olhando por uns segundos quando eu interrompi.

– Está tudo bem?

– Oi… É… Eu… Eu acho que sim.

– Bom, você estava se afogando. Teddy viu de longe e começou a latir para chamar minha atenção.

– Ele é mesmo um bom garoto, obrigada Teddy. – Ela o abraçou e em seguida afagou sua cabeça.

– Você está com alguém? Quer que eu ligue para alguém?

– Não, na verdade estou sozinha.

– Como caiu no lago, você se lembra?

– Sim, eu vi uma pedra azul bonita e quis pegar. Mas acabei me desequilibrando e caindo, e como pode perceber eu não sei nadar. Sorte minha que o Teddy estava por perto.

– Sim, sorte sua que ele estava por perto. Como se chama?

– Mirelle.

– Bonito nome Mirelle, quer que Teddy e eu a levemos pra casa?

– Seria um prazer ser escoltada por esse garotão.

– Ok, vamos… Eu te ajudo a levantar.

Antes de sairmos Teddy se levantou e bateu as duas patas na blusa que a Mirelle estava vestindo. Eu até agora estou sem entender como isso aconteceu e como ele sabia o que se passava dentro de mim, mas dizem que cachorros conseguem sentir as mesmas coisas que seus donos sentem. Quando levantei a voz para brigar com ele por aquela atitude, eu pude ler o que estava escrito na blusa que a Mirelle estava usando e naquele momento eu confesso que algumas lágrimas rolaram, provavelmente ela não tenha entendido nada, mas em sua blusa estava escrito: “Leia meu coração…”

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